O Desenvolvimento do Espaço Urbano de Tenório (PB): Trajetória, Dinâmicas e Desafios Contemporâneos
Vanildo Batista Gomes¹*
¹ Professor de Geografia da Rede
Municipal de Tenório – PB.
E-mail: vanilbatista@gmail.com
Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar o processo de desenvolvimento do espaço urbano do município de Tenório, localizado na mesorregião da Borborema e na microrregião do Seridó Oriental da Paraíba. A partir de uma abordagem qualitativa e do referencial teórico da geografia urbana, buscou-se compreender como diferentes agentes sociais — proprietários fundiários, comerciantes, o Estado e grupos excluídos — atuaram na conformação do espaço urbano local desde o desbravamento da caatinga na década de 1930 até os dias atuais. O estudo evidencia que, mesmo em uma cidade de pequeno porte (2.966 habitantes, segundo o Censo 2022), os processos de urbanização reproduzem dinâmicas próprias do sistema capitalista, como a segregação socioespacial, a especulação imobiliária e a desigualdade no acesso à infraestrutura urbana. Os resultados apontam para avanços significativos na redução da pobreza extrema e no crescimento do IDH, mas também revelam desafios estruturais persistentes, especialmente na área de saneamento básico e mobilidade urbana, que demandam políticas públicas integradas e inclusivas.
Palavras-chave: Espaço urbano. Tenório. Segregação socioespacial. Urbanização. Geografia.
1. Introdução
A história das cidades está intrinsecamente ligada às transformações das sociedades que as edificam. Segundo Souza (2003), as primeiras aglomerações urbanas surgiram durante a chamada revolução agrícola, ou Neolítica, quando o desenvolvimento das atividades agrícolas gerou excedentes que, posteriormente, passaram a ser trocados nos povoados em formação. Foi nesse contexto que floresceram as primeiras cidades nas regiões da Mesopotâmia, do Vale do Nilo, do Vale do Indo e, mais tarde, na China — locais onde o intenso intercâmbio de pessoas e mercadorias, aliado ao aparato de gestão do território, consolidou o urbano como espaço de mercado e de atividades não agrícolas, conforme destacado por Max Weber, citado por Souza (2003).
No Brasil, o processo de urbanização reproduziu, em escala distinta, essa mesma lógica: cidades construídas por diferentes agentes sociais que fragmentam o espaço urbano a partir de estratégias, ações e interesses diversos. Como explicita Correia (1993), esses agentes — proprietários dos meios de produção, proprietários fundiários, promotores imobiliários, o Estado e os grupos sociais excluídos — atuam de maneira concreta na conformação do tecido urbano. É sob essa perspectiva que analisamos o desenvolvimento do espaço urbano de Tenório, município localizado na mesorregião da Borborema e na microrregião do Seridó Oriental da Paraíba.
2. Origem da Cidade de Tenório
Tenório situa-se a aproximadamente 233 km de João Pessoa, capital paraibana, inserido no semiárido nordestino e na área de abrangência do Polígono das Secas. Sua origem remonta à década de 1930, quando três irmãos da família Batista — Cícero Batista de Azevedo, Manoel Batista de Azevedo e Joel Batista de Azevedo — adquiriram terras do senhor Severino Galdino de Araújo, genro de Manoel Gregório Dantas, que já possuía extensas propriedades na região.
O topônimo "Tenório" permanece envolto em controvérsias. Segundo relatos orais de moradores mais antigos, como João Batista Neto e Dona Alzira Gomes dos Santos, Tenório teria sido um indígena oriundo do Rio Grande do Norte, dotado do dom de encontrar água no subsolo — as chamadas "cacimbas" — e de curar enfermos por meio de orações, fixando-se às margens do riacho que hoje leva seu nome, afluente do rio Taperoá. Outros relatos, porém, atribuem-lhe olhos azuis e pele clara, sugerindo origem não indígena. O certo é que, independentemente de sua etnia, a figura de Tenório simboliza a chegada dos primeiros habitantes à região.
A partir de 1930, famílias de diferentes procedências — do brejo paraibano e do Rio Grande do Norte — iniciaram o desbravamento da caatinga para dar lugar ao plantio de feijão, milho e mandioca, além do sisal e do algodão, produtos muito procurados na época. A pecuária, por sua vez, não exigia grandes desmatamentos, coexistindo com a agricultura de subsistência. Foi nesse cenário de ocupação gradual que se delineou o primeiro traçado urbano, iniciado ao lado da casa de Cícero Batista de Azevedo e de outros moradores.
O marco oficial da fundação ocorreu em 14 de agosto de 1952, com a realização da primeira feira livre e de uma missa na residência de Cícero Batista de Azevedo. Posteriormente, o distrito de Tenório foi criado pela Lei Estadual nº 212, de 11 de maio de 1959, subordinado ao município de Juazeirinho. Só em 29 de abril de 1994, pela Lei Estadual nº 5.889, Tenório foi elevado à categoria de município, desmembrando-se de Juazeirinho e tendo como primeiro prefeito constitucional o Sr. Januário Cordeiro de Azevedo.
3. O Espaço Urbano de Tenório
O espaço urbano de Tenório organizou-se conforme a lógica do sistema capitalista, na qual diferentes usos da terra se justapõem e se contradizem. Como aponta Correia (1993), o espaço da cidade capitalista constitui-se, em primeiro lugar, no conjunto de diferentes usos do terra justapostos entre si, sendo apropriado por agentes que o fragmentam segundo distintos modos de interesse.
Nesse contexto, o desenvolvimento urbano de Tenório esteve intimamente ligado à feira livre, que posicionou a cidade na rota do comércio entre a região do Cariri, o sertão paraibano e o Seridó do Rio Grande do Norte. O espaço recém-criado funcionou inicialmente como ponto de intercâmbio de mercadorias e pessoas, fixando comerciantes que antes transitavam por outras localidades, como o Sr. Severino Guedes Alves (conhecido como Severino Sinhá) e Ladislau Cordeiro de Lima.
Esses fluxos de pessoas e mercadorias deram suporte ao surgimento das primeiras ruas, do posto de saúde, do grupo escolar e da "luz a motor" — um avanço que significou extraordinário desenvolvimento para a renascente vila. A ocupação fundiária, por sua vez, consolidou-se a partir das propriedades de Cícero Batista de Azevedo e de Manoel Gregório, terras sobre as quais o espaço urbano foi se expandindo e se urbanizando sob a ótica desses agentes sociais.
A feira livre foi, sem dúvida, um dos fatores determinantes para a transformação do antigo lugarejo em vila e, posteriormente, em cidade. Conforme Santos (1979), a estrutura do aparato de produção e comercialização presente em uma cidade é variável importante do consumo, uma vez que os proprietários comerciais são grandes consumidores do espaço — observação igualmente reforçada por Correia (1993).
Atualmente, Tenório conta com uma população de 2.966 habitantes, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, o que representa um aumento de 5,44% em relação ao censo anterior. A densidade demográfica é de 33,92 hab/km². No interior desse espaço urbano, observa-se a descentralização das atividades comerciais que, antes concentradas no centro, migraram para outras vias, como a Rua Francisco Amaro, onde hoje funcionam grandes mercadinhos e uma agência da Caixa Econômica Federal — serviços que, outrora, só eram encontrados em cidades maiores, consideradas centros regionais.
4. Os Problemas Urbanos de Tenório
As dificuldades que afligem as grandes metrópoles não poupam as pequenas cidades, embora em Tenório seus efeitos sejam proporcionalmente atenuados pela dimensão reduzida do município. Os principais desafios estão relacionados à falta de infraestrutura, problemas de caráter governamental que afetam diretamente a qualidade de vida da população.
A questão do saneamento básico é emblemática. Segundo dados do Censo 2010 e de levantamentos técnicos posteriores, o município não possui rede coletora de esgoto. A população recorre a fossas rudimentares — simples escavações no solo sem revestimento — que funcionam como tratamento dos efluentes sanitários, enquanto os demais dejetos são lançados diretamente no solo ou nos logradouros. Essa realidade compromete a qualidade das águas subterrâneas e eleva o risco de contaminação por nitrato e coliformes termotolerantes. O abastecimento de água, por sua vez, é realizado pela Prefeitura sem rede interligada às residências, dependendo de pontos de coleta, carros-pipa, cisternas e outras fontes alternativas.
A mobilidade melhorou com a ligação asfáltica através da PB-195 de Tenório à BR-230, ocorre por estrada pavimentada até Juazeirinho, seguida de trecho em terra que liga a zona rural até esta estrada, dificultando o escoamento da produção local e o deslocamento das pessoas.
Outro fenômeno que merece atenção é a segregação socioespacial. Embora Tenório seja uma cidade de pequeno porte, já se observa uma fragmentação em divisões de classe: famílias com maior poder aquisitivo tendem a residir na área central, enquanto as de menor renda ocupam áreas mais periféricas. Para Bonduki & Rolnik, citados por Sogame (2001), as áreas periféricas são "parcelas do território da cidade que apresentam baixa renda diferencial", ou seja, localidades onde quase não há serviços urbanos. Esse processo de segregação é provocado, essencialmente, pela manutenção da propriedade privada do terreno urbano como forma dominante de ocupação, marginalizando as classes menos favorecidas.
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Tenório foi de 0,581 em 2010, situando o município na faixa de desenvolvimento humano baixo. Entre 2000 e 2010, houve crescimento expressivo nas dimensões de Educação (0,281) e Longevidade, com redução da extrema pobreza de 61,28% (1991) para 13,91% (2010). A renda per capita média, embora ainda modesta, cresceu 213,85% nas duas décadas, passando de R$ 85,91 (1991) para R$ 269,63 (2010).
5. Considerações Finais
O desenvolvimento do espaço urbano de Tenório revela, em escala reduzida, as dinâmicas próprias do processo de urbanização brasileira. Desde o desbravamento da caatinga e a fixação das primeiras famílias, passando pela consolidação do comércio através da feira livre, até a emancipação política em 1994, a cidade construiu-se a partir das ações de diferentes agentes sociais que, segundo a teoria de Correia (1993), fragmentam o espaço segundo interesses distintos.
Mesmo em uma cidade de menos de três mil habitantes, os problemas urbanos contemporâneos — falta de saneamento básico, precariedade viária, segregação socioespacial e desigualdade de acesso aos serviços — ecoam os desafios das grandes metrópoles, demonstrando que a lógica capitalista de produção do espaço urbano opera de maneira transversal, independentemente do porte do município.
A trajetória de Tenório também aponta para avanços: a redução da pobreza extrema, o crescimento do IDH acima das médias nacional e estadual, e a expansão de serviços bancários e comerciais para além do centro histórico. No entanto, persistem desafios estruturais que demandam políticas públicas integradas, especialmente na área de saneamento básico e infraestrutura viária, para que o desenvolvimento urbano seja, de fato, inclusivo e sustentável.
Como bem observa Santos (1979), a estrutura do aparato produtivo e comercial de uma cidade é inseparável de seu consumo de espaço. Em Tenório, essa relação se faz presente desde a feira livre do "Piso" até os mercadinhos da Rua Francisco Amaro, revelando que o espaço urbano, longe de ser neutro, é território de disputas, memórias e projetos de futuro.
Referências Bibliográficas
BONDUKI, Nabil; ROLNIK, Raquel. Periferia: a produção do espaço urbano. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Citado por SOGAME, 2001).
CORREIA, Roberto Lobato. Geografia e urbanização: introdução à geografia urbana. São Paulo: Ática, 1993.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Cidades e Estados: Tenório (PB). Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/pb/tenorio.html. Acesso em: ago. 2026.
PREFEITURA MUNICIPAL DE TENÓRIO. História do Município. Disponível em: https://tenorio.pb.gov.br/a_cidade/historia. Acesso em: ago. 2026.
SANTOS, Milton. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1979.
SOGAME, Maurício. Rudimentos para o exame da urbanização em sua fase crítica: uma aproximação ao conceito de segregação socioespacial. Revista Geografares, Vitória, n. 2, jun. 2001.
SOUZA, Marcelo Lopes de. ABC do desenvolvimento urbano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.