Tenório – A Cidade e Seus Mistérios: a história que os documentos e a memória revelam
Autor da obra analisada: Vanildo Batista Gomes
Resumo
Palavras-chave: História local; Tenório (PB); Sertão paraibano; Memória oral; Emancipação política; Família Batista de Azevedo.
Este artigo analisa a obra Tenório – A Cidade e Seus Mistérios: uma história não contada no Seridó da Paraíba, de Vanildo Batista Gomes, que investiga a verdadeira origem do município de Tenório, situado na região do Seridó Oriental paraibano. Ao confrontar a versão oficial — que fixa a fundação em 14 de agosto de 1952, com uma missa e uma feira — com documentos cartoriais e depoimentos de memória oral, o autor demonstra que a trajetória da cidade é muito mais antiga e complexa. O nome "Tenório" já aparece em assento de casamento de 1918; a compra legal das terras por Cícero Batista de Azevedo data de 1934; e a lenda que batizou o lugar remonta a um misterioso rezador, lembrado por sua habilidade de encontrar água no solo seco. A obra percorre ainda a formação do povoado, a consolidação do poder político sob influência da família Batista de Azevedo e os desafios da Tenório contemporânea. Com base em documentos originais e nas contribuições da micro-história e dos estudos sobre memória e poder local, o livro resgata uma história que havia sido parcialmente soterrada pela narrativa oficial, mostrando que uma cidade se constrói não apenas de datas festivas e leis, mas também de laços familiares, de um pedaço de terra comprado com esforço e de uma fé que se transmite de geração em geração.
Artigo
O mistério guardado em uma caixa de documentos
Tudo começou com poeira. Uma caixa esquecida no Sindicato Rural de Juazeirinho, na Paraíba, guardava papéis amarelados entre os quais se encontrava uma escritura lavrada em 25 de novembro de 1934. O valor: oitocentos mil réis. O objeto: trezentas e trinta e duas braças de terra encravadas na propriedade Tenório. O comprador: Cícero Batista de Azevedo (GOMES, 2025, p. 4).
Ao ler aquelas linhas, Vanildo Batista Gomes fez uma pergunta que mudaria tudo: se aquele documento provava que Cícero já era dono das terras em 1934, por que a história oficial afirmava que Tenório havia nascido apenas em 1952, com uma missa e uma feira? A resposta a essa pergunta transformou-se em um livro que é, antes de tudo, um ato de justiça à memória de um povo (GOMES, 2025, p. 4).
A investigação se desenvolve com base em três pilares teórico-metodológicos: a noção de lugares de memória, de Pierre Nora; a perspectiva da micro-história italiana, que valoriza o estudo de casos locais para compreender fenômenos mais amplos; e a análise crítica das narrativas oficiais em contraste com as fontes orais e documentais (GOMES, 2025, p. 14).
Quem foi Tenório?
A própria origem do nome é um mistério que revela a alma sertaneja. A versão oficial diz que vem de uma família aristocrata espanhola do século XII. Já a memória popular, registrada nos depoimentos de João Batista Neto e de Dona Alzira Gomes dos Santos, aponta para um rezador vindo do Rio Grande do Norte, com o dom de encontrar água no solo e curar os doentes. Outra tradição, contada por Jonas Batista de Azevedo e Fenelon Batista de Morais, afirma que ele era um homem de pele clara e olhos azuis, talvez um europeu perdido no sertão (GOMES, 2025, p. 19-22).
O que se sabe com segurança é que o nome "Tenório" já existia muito antes de qualquer registro de propriedade. Em 17 de dezembro de 1918, quando Cícero Batista de Azevedo se casou com Maria Constantina de Moraes, o vigário já registrou o local como "logar Tenório" (GOMES, 2025, p. 30-31). O nome estava gravado na memória e na terra, carregado de lenda e de fé, muito antes de a cidade ganhar ruas, praças e leis.
O nascimento silencioso que os livros esqueceram
Cícero não inventou Tenório. Ele o encontrou, casou-se ali, comprou suas terras e, lentamente, construiu um sonho. Em 1930, juntamente com os irmãos Manoel e Joel, adquiriu as terras da região. Em 9 de novembro de 1934, foi lavrada a escritura pública de compra e venda, e em 25 de novembro do mesmo ano, o registro foi averbado no Cartório de Soledade — selando juridicamente o que já existia no coração das pessoas (GOMES, 2025, p. 38-41).
Décadas se passaram. O desbravamento foi lento, árduo, marcado pela seca e pela esperança. Em 14 de agosto de 1952, na casa de Cícero, celebrou-se a primeira missa e abriu-se a primeira feira. A partir daí, a história oficial passou a dizer: "foi assim que Tenório nasceu" (GOMES, 2025, p. 46).
Mas a verdade, que o livro resgata com rigor e sensibilidade, é outra: aquele dia foi apenas o batismo público de uma cidade que já havia sido concebida muito antes — em 1918, com um casamento; consolidada em 1934, com uma assinatura e um imposto pago; e construída, tijolo a tijolo, por famílias que ali fincaram raízes e decidiram chamar aquele lugar de seu. Como observa o autor, a história oficial escolheu 1952 porque é uma data que pode ser contada em praça pública, com padre e fogos; mas a história não contada resgata 1934, a data que só pode ser lida em um arquivo empoeirado (GOMES, 2025, p. 51).
A terra, a família e o poder
O livro mostra também como os laços de sangue e de terra teceram o destino político da cidade. Quando Tenório se emancipou em 29 de abril de 1994 e instalou seu primeiro prefeito em 1º de janeiro de 1997, quem assumiu o cargo foi Januário Cordeiro de Azevedo — genro de Cícero Batista (GOMES, 2025, p. 52, 59). Não foi mero acaso. Foi a continuação de uma estratégia iniciada décadas antes, na qual a posse da terra se converteu em influência política, em um processo que reatualiza as características do poder local descritas por Victor Nunes Leal: onde antes o poder se exercia sobre posseiros e agregados, agora se exerce, de forma renovada, sobre funcionários públicos e contratos (GOMES, 2025, p. 60).
Por que esta história importa?
Ao fechar o livro, compreendemos algo maior. A história de Tenório é a história de quase todas as cidades do interior do Brasil: nascem não de decretos ou de datas comemorativas, mas de pessoas que acreditam em um pedaço de chão, que guardam nomes e lendas, que resistem ano após ano à seca e ao esquecimento. A obra faz algo raro: devolve a voz aos que ficaram em silêncio. Mostra que há verdades guardadas em gavetas e na memória dos mais velhos. E que, às vezes, a verdadeira história não está escrita nos sites oficiais, mas naquilo que um povo sente e transmite de boca em boca, como uma oração que nunca se esquece.
Como escreveu o oficial que lavrou aquela escritura de 1934: "O referido é verdade e dou fé" (GOMES, 2025, p. 3). Este livro é também uma declaração de fé: fé na memória, fé nas pessoas, fé em uma pequena cidade do Seridó que, mesmo com todas as suas limitações, carrega uma alma imensa.
Referências Bibliográficas
GOMES, Vanildo Batista. Tenório – A Cidade e Seus Mistérios: uma história não contada no Seridó da Paraíba. Tenório, PB: [s.n.], 2025.
LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 7. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
MEDEIROS FILHO, Olavo de. Velhas famílias do Seridó. Brasília: Senado Federal, 1981.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, v. 10, p. 7-28, dez. 1993.
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